
Ao defender a verdade, deixamos evidente a firme e constante presença da mentira ─ mecanismo de defesa que aprendemos a usar de todas as formas desde tenra idade. Quem diz nunca ter mentido, mente na simples afirmação, pois é fato que os seres humanos viveriam em constantes conflitos caso as verdades fossem arbitrariamente expostas, mesmo porque, toda verdade é questionável.
As características individuais e as influências recebidas do meio onde se vive pré-determinam o comportamento de cada um, moldando um indivíduo único, apto a se manter da melhor forma possível, burlando os inconvenientes, os empecilhos, as dores e os conflitos, para um caminhar mais livre na sua evolução natural.
Ao usarmos da mentira e sairmos ileso, habituamo-nos a ela de tal forma que podemos mentir diariamente e sem perceber, certos de estarmos promovendo o bem, harmonizando as relações. Quem nunca disse um falso elogio para um conhecido ou amigo? Ou prometeu algo que não cumpriria a um filho ou sobrinho? Ou, ainda, tendenciou alguma história para beneficiar-se? Assim, mentir torna-se uma necessidade, uma escolha ponderada entre impor ou aceitar uma vontade ou opinião contrária a nossa. Quando usada com habilidade e ponderação, a mentira pode gerar algum benefício, um estímulo, um contentamento, evitando problemas maiores.
Porém, pecamos ao esquecermos que a mentira não tem sustentabilidade e, quando atropelada, revela-se no momento menos oportuno, delatando e humilhando sem o menor perdão, o seu autor.
Ao longo da escola da vida, muitos se formam, bacharelando-se na disciplina, verdadeiros mestres na arte de mentir e convencer, galgando altos postos na cadeia social. Para estes, a mentira torna-se o pilar de sua sustentação, tendo constantemente a necessidade de aprimorar as técnicas e fomentar as próprias crias, pois, caso contrário, estas se perdem, já que não existem de fato.
A cada quatro anos, um número cada vez maior de mentirosos surgem, expondo-se em programas de TV, rádios, jornais, panfletos promocionais e palanques, explicitando suas verdadeiras mentiras, grandes e pequenas, a depender da ousadia e do ego de quem a defende.
Ao mentir por mentir, todos nós pecamos, e não adianta querer tirar o corpo fora. A mentira não pode e não deve interferir na qualidade de vida do próximo, roubando deste direitos naturais e universais. Como ainda não dispomos de um “mentirômetro” portátil para detectar os mentirosos profissionais, caberia ao rigor das leis medir suas falsas promessas, caso estas não fossem cumpridas. Pois a mentira, por mais verdadeira que pareça e o provável bem que desencadeie, ainda assim continuará sendo mentira.