
Numa tarde chuvosa de inverno, um cachorro amarelo, magro de ver-lhes as costelas, procura proteção na marquise de uma loja. Encolhido, tenta fazer-se invisível aos olhos humanos e ali aquecer-se do frio doído que lhe corroia as entranhas. A fome nem lhe incomodava mais, esquecida nos longos jejuns forçados. Trêmulo esconde o focinho entre as patas dianteiras devido a uma rajada mais forte de vento. Nesse momento o som de passos machucando o chão alerta nosso amigo amarelo para uma aproximação perigosa. Assustado, ergue o pescoço a tempo de ver dois membros longos e enormes marchando em sua direção, com uma fúria que não podia entender a razão.
“Não, não, não fui eu! Eu não fiz nada. Só quero me proteger da chuva.” – resmungou enquanto se erguia às pressas e fugia sem olhar a que direção.
Mas seus protestos soaram como pequenos latidos chorosos para os ouvidos insensíveis do homem. Nosso personagem não podia imaginar que aquele local protegido da chuva já era território do monstro do pé grande. E, na sua agonia em afastar-se, atropelou um transeunte, quase o levando ao chão. Outros gritos e novos xingamentos foram lançados, reverberando em seus tímpanos como urros ameaçadores e aterrorizantes.
Com o pequeno coração a latejar mais forte, corria sem olhar para trás, desviando-se dos obstáculos e clamando por um lugar seguro. A certa distância, a movimentação de humanos diminuiu, e ele, então, parou de correr, observando à volta. A chuva caía ininterrupta, encharcando-o até os ossos. Do outro lado da rua um galpão aparentemente abandonando, oferecia um quente e calmo abrigo.
Atento, olhou as laterais e, como nenhum monstro rolador corria pela rua, atravessou rapidamente. A grande porta estava aberta, e o calor acolhedor que de lá emanava o convidava para um momento de descanso. Feliz da vida, sacudiu o excesso d’água da pelagem curta e respirou aliviado, agradecido por aquele achado.
Porém, para seu desassossego, o local não estava vazio. Alguns daqueles seres chamados humanos encontravam-se ali. Embora estes fossem bem menores e menos assustadores, não sabia se também seriam agressivos. Desconfiado, parou próximo à saída. Os pequenos humanos logo perceberam sua presença e um deles inclinou-se amistosamente, aquecendo de esperança o coração de nosso amigo. Com o rabo encolhido entre as pernas, iniciou uma lenta aproximação, mas na metade do cominho percebeu a mão erguida dos outros dois e, na seqüência, dois projeteis voaram em sua direção. Conseguiu desviar-se de uma das pedras, mas a outra acertou-lhe o traseiro. A sensação de agulhas penetrando-lhe a carne vinha do local atingido.
“Socorro! Esses são ainda piores!” – gritou mais uma vez, enquanto fugia desenfreado, ainda mais assustado e triste.
Na corrida, lançou-se pelo meio da rua, não se dando conta do veículo em sua direção. O brilho do farol, o ruído das rodas contra o chão e água sendo lançada por todos os lados desnortearam-no, vendo-se frente a frente com o monstro rolador, o perigo das estradas. Em meio à confusão não sabe como conseguiu esgueirar-se para a outra calçada, sumindo numa ruela enquanto o veículo amassava seu pára-choque contra o poste.
Sentindo-se rejeitado e causador de tanta desordem, desejou não existir. Se não havia lugar no mundo para ele, o que faria? Para onde ir? Misturando suas lágrimas às gotas da chuva, vagou sem direção, buscando no longe um refúgio.
Cansado, diminuiu a marcha ao ver um vulto se aproximar vagarosamente. O humano apesar de idêntico a todos os outros, parecia diferente. Seus movimentos eram suaves, seu andar leve como se nada pesasse. Nas mãos trazia um embrulho de onde fugia um aroma delicioso, acordando seu estômago ávido por alimento. Curioso, meio que hipnotizado, parou para entender o que acontecia. E, em meio a sua descrença, recebeu ração num canto protegido da chuva, além de carinho e atenção daquela alma verdadeiramente humana. Saciado, dormiu com estômago e alma aquecidos.
“Quantos de nós dobramos nossos joelhos diante dos altares de nossas crenças e ao nos erguermos chutamos o primeiro cachorro que cruza nosso caminho? Quantos de nós fazemos doações vultosas para alguma campanha beneficente só para sermos admirados e invejados? Quantos de nós tentamos nos esconder em nossas falsas ideologias? Mas..., nem tudo está perdido. Acredite! Alguns são verdadeiramente bons. VIDA LONGA A ESSES.”