
No abismo negro e profundo do vazio, o silêncio. Tudo é quieto, contido. Uma mansidão mórbida reina por todos os lados. Não há guerras ou conflitos. A paz aglomera os elementos num único organismo, cada vez mais compacto e pesado. Sua força infinitamente grande parece fundi-los no mesmo objetivo: estarem juntos, quietos e em paz.
Será...?
Então, a paz torna-se sufocante, entediante, pequena demais para tantos elementos. E num grito de liberdade, os limites se rompem liberando toda energia contida, produzindo o maior de todos os ruídos, viabilizando um universo de criações. O primeiro pulsar, a primeira vibração, cadência que percorreu milênios, orientando, coordenando a origem de tudo. Sob sua regência mágica, divina, a vida aprende a pulsar nesse mesmo ritmo.
Nascidos do caos, somos seus herdeiros, e talvez por isso falamos e buscamos tanto a paz. Por mais que tentamos, é muito difícil para nós exercê-la, pois necessitamos dos conflitos para produzirmos, para evoluirmos, para transformarmos. Somos um pequeno Big Bang orgânico vivendo profundas transformações físicas, emocionais e espirituais.
Desde o seu nascimento, nosso mundinho só galgou grandes mudanças por meio de conflitos naturais e mecânicos. A terra só se tornou habitável após o caos da organização climática. Nós homens surgimos depois da extinção dos dinossauros. Aprendemos a respeitar fronteiras por conhecermos a represária do vizinho. Conquistamos direitos através de lutas civis e homéricas revoluções. O avanço tecnológico nasceu para dar suporte às grandes guerras. Enfim, todas as conquistas parecem geradas no útero das desavenças, trazendo algo de positivo como recompensa.
Quantas vezes, após sofridos desentendimentos, encontramos o equilíbrio satisfatório, mesmo que momentâneo. Amigos, famílias e sociedades inteiras buscam o ajuste, e para tanto percorrem a trilha do desassossego, chocando saberes, crenças, ideologias, desejos e toda a sorte de sentimentos.
É como se a humanidade estivesse se doutorando através de todas as dores possíveis, aprendendo a ser melhor através do seu pior. Apesar de irônico, os exemplos estão aí, em todo canto e lugar. Nem é preciso buscar na história, basta vislumbrar nosso próprio ambiente familiar ou de trabalho. Quando não estamos brigando, lutando, disputando com alguém ou alguma situação, estamos conflitando intimamente com nossas indecisões, medos, arrependimentos e emoções.
Parece que ainda não conhecemos o verdadeiro sentido da paz, talvez por não fazer parte de nossa índole genética. Assim, a temos como algo surreal, envolta em uma áurea mística e que só os mais evoluídos são capazes de alcançá-la e regozijar-se com sua aparente monotonia.
Talvez chegue o momento em que aprenderemos a evoluir sem o auxílio das guerras. Quem sabe, quando chegarmos ao limite de saturação de todos os conflitos, poderemos implodir num Big Bang inverso conhecendo o reagrupar dos elementos, saboreando as virtudes misteriosas da PAZ.