
A chama da vela tremula suavemente irradiando calor e luz pelo exíguo ambiente. Mãos doloridas pela insistência da escrita preenchem folhas e folhas de papiro. Nosso escriba está exausto, mas é no ar fresco e silencioso da noite que ele comunga com uma inspiração quase divina. Sua mente e sua mão estão em perfeita sintonia. Nada interfere. Ele está longe, envolvido e dominado pelos próprios pensamentos.
Na solidão calma de sua reclusão, ergue os olhos para molhar mais uma vez a pena no tinteiro. Nesse momento pensou ter visto um movimento, uma sombra no canto mais escuro do quarto. Resgatando todos os sentidos alertou-se para o desconhecido, talvez uma ameaça, um perigo...
Então, o vulto moveu-se em sua direção, travando-lhe o ar na garganta. Não estava só. E agora, o que fazer? Pensou, assustado e sem ação. Antes que pudesse ordenar os pensamentos os contornos curvilíneos da cintura e do quadril tomaram o ângulo de sua visão. Deixando o lábio inferior pender observou a ampla planície do abdômen, a cavidade umbilical e o misterioso triangulo de pêlos. Um calor incontido e local ativou suas células penianas, como se seu membro tivesse vida própria. Assaltado pela dormência súbita em seu órgão sexual, ergueu os olhos para os seios fartos que desafiavam a gravidade. A pele nua tingida no mais puro desejo vinha em sua direção. Sexo, ela exalava, oferecia e buscava.
Arfante, nosso personagem lançou um olhar de vencido para a face linda que vinha ao seu encontro. Ele não podia resistir. Não havia oração que o salvasse. Dominado pelo desejo maior em seu corpo, ergueu uma das mãos para atestar a maciez da pele. E ele grita, acordado e queimado pela chama da vela que se interpunha entre ele e a imagem de sua própria mente.
Mais uma vez Eváglio era sabotado pelos próprios pensamentos. Mesmo recluso no deserto egípcio, o monge não conseguia livrar-se do pecado da luxúria, tão enraizado em seu ser como as células de seu corpo. Sua luta por tornar-se puro parecia uma tarefa descomunal, e quanto mais se distanciava das ameaças e tentações mais elas pareciam procurá-lo.
O que Eváglio não podia conceber é que todo o pecado do qual tentava livrar-se estava dentro dele, e quanto mais se isolava mais vulnerável ficava às próprias tentações. Foi pelas mãos dele que os 7 pecados capitais foram redigidos e listados pela primeira vez no ano de 375 dC. Ao contrário do que muitos imaginam, os 7 pecados não podem ser encontrados na Bíblia. Essa lista foi mais tarde, no século VI, reformulada pelo papa Gregório Magno, definindo: a gula, a luxúria, a ira, a avareza, a soberba, a preguiça e a inveja como os grandes male que roubariam as almas dos homens. Mais tarde, no século XIII, São Tomás de Aquino detalhou cada um dos 7 pecados capitais, dando mais força ao sentimento de pecar.
A luxúria, em particular, sugere um desejo desordenado que tem como intuito saciar uma necessidade sexual. O pecador pensa apenas no próprio prazer que, momentâneo, proporciona uma determinada satisfação, mas que logo ressurgirá, exigindo mais e outra vez mais.
Nas culturas antigas o sexo e suas formas eram referências para Deuses, lendas, fertilidade, abundância, sorte e todo tipo de características positivas, pois era através do sexo que o ciclo da vida se repetia.
Porém, com o surgimento do cristianismo a sexualidade passa a ser vista com algo sujo e abominável, a porta por onde o mau domina homens e mulheres. O ato sexual só é aceito como forma de procriação e tudo que foge dessa regra é pecar na luxúria.
Mas, por mais terríveis que fossem as punições e inúmeras as regras e castrações, o ser humano nunca conseguiu deixar de pecar. Mesmo nas comunidades puritanas que se propunham a um modo de vida em comunhão com Deus, a luxúria nunca foi banida.
Já na cultura indiana, sexo e religião se confundem, ao passo que para o povo árabe o limite para a luxúria flexiona-se, permitindo ao homem quantas mulheres ele pode manter, e nunca o inverso.
Nas diversas sociedades ao redor do globo percebemos entendimentos distintos para o pecado da luxúria, variando de modo e intensidade.
E, numa análise rápida e superficial, podemos concluir que a luxúria é um pecado criado pelo homem na tentativa vã de frear nossa característica nata, o desejo sexual, fato que garante a continuidade da espécie. Enfim, o sexo, quando consentido e desejado, não deveria ser rotulado de pecado, ou então deveríamos dar outra conotação para luxúria. Afinal, se luxúria não é crime, por que então deve ser pecado? E, se assim for, somos todo pecadores, pois basta a vontade velada como a de nosso escriba do início da história para estarmos pecando. Basta o exercício do pensamento.
Dessa forma quem nunca teve um único sonhozinho erótico deve preocupar-se. Não me parece organicamente normal nunca ter pecado na luxúria.