06-05-2008
EMPRESÁRIOS DA FÉ

“Antes de fluir na narrativa, gostaria de lembrar que não faço referencia a Bispos, Pastores, Padres ou Religiosos, mas não posso impedir que a carapuça seja tomada por um ou outro. Por isso, arrisque-se quem quiser.” A melodia, na voz perfeita da cantora, emociona os ouvintes, carregando-os num parcial transe. Envoltos pela energia invisível desprendida pela música entregam-se sem medo, afinal, estão entre iguais, irmãos na mesma fé. Aos poucos a música torna-se uma melodia de fundo e, nesse momento, a voz do palestrante, condutor do grupo em questão, soa baixa, proferindo palavras em oração. De olhos fechados e com uma das mãos no peito, transparece sua humildade e submissão a Deus, a quem eleva suas preces. O timbre, inicialmente cálido, vai ganhando força numa cadência crescente e angustiante, suplicando, implorando num autoritarismo disfarçado que Deus atenda a seus pedidos. Em meio à oração sistemática do falante, rompe, de pontos distintos, a intervenção dos ouvintes fiéis: Aleluia! – grita um. Glória a Deus! – diz outro. E, fundidos na mesma emoção, são convidados a cantar num só coro enquanto fazem suas singelas doações. Revigorados na mesma fé, os que podem doam e os que não podem, também, afinal, Deus lhes dará em dobro, assim explicou o palestrante.
Convertidos e submissos, confiam e temem ao homem que parece conhecer tão bem a palavra de Deus, proferindo-a sempre com tamanha convicção. Quem irá contestar aquele que fala em nome do amor de Deus e carrega consigo tantos seguidores? Quem irá negar-lhe de seu tempo e dinheiro, se é tudo em função de um bem maior, à vontade de Deus? Quem se oporá a uma palavra bem colocada sob o auspício do Senhor?
A cena se repete em todos os cantos e recantos do país, despertando a emoção, confundindo-a com a fé. Numa terapia coletiva, comandada pelos profissionais da oração, os indivíduos são convidados a depositar suas esperanças na provisão divina. Caso merecedores, alcançarão a graça do milagre, na benção da boa saúde, na família, no amor, no bom salário e em tudo o mais que foi desejado. Admiráveis, estes homens da fé são capazes de estimular o potencial de cada um enquanto controlam essa grande massa da sociedade, muitas vezes reprimida e excluída. É bom lembrar que cada um veste o número que lhe cabe, ou seja, cada um faz o que é melhor para si conforme seu grau de evolução, necessidade e livre-arbítrio. A meu ver, vale mais um céu “cheio”, de duvidosas intenções do que um inferno lotado de boas intenções. O mau uso da palavra de Deus é por risco e responsabilidade daquele que fala e não do ouvinte que a usa como mecanismo de comunhão.
Um homem acalentado, seguro de sua religião e inserido num grupo que comunga um mesmo pensamento é capaz de um equilíbrio maior, aceitando os dissabores da vida como um desafio, uma provação que a sua fé o fará vencer. Duvida?
E, mais uma vez, admiro, também os seguidores da fé capazes sempre do bem, apoiados em suas crenças incontestáveis. Então, penso se a intervenção divina não tem aí o seu dedinho, lembrando ao homem que, por mais impuras que sejam suas intenções e ações, ele sempre dará um jeito de plantar o bem no coração daqueles que o acolherem, esteja este a onde e com quem estiver. Aleluia!
|
| |
| Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 17:10:51 |
| (70513) Comentários | Enviar por e-mail |
|
02-05-2008
FELICIDADE, A ETERNA BUSCA

Aristóteles (384 a.C), no seu tempo, já dizia que a maior meta do homem é a felicidade. Mas, como alcançá-la....? Ao longo da nossa trajetória, o homem dedicou-se sempre a grandes objetivos, ampliando territórios, subjugando outros povos, guerreando de todas as formas para conquistar e manter-se no poder, crente que tão palpável quanto o acúmulo de seus bens materiais, a felicidade, então plena, estaria ali. Já, o renomado filósofo grego, Tales de Mileto (640 a.C), dizia que a felicidade consistia em gozar de boa saúde, possuir bens materiais em quantidade moderada e não viver uma vida de ócio e ignorância. Porém, como limitar os desejos, não ser seduzido pelo ócio, fugir do conforto da ignorância e ter um corpo sempre saudável? O conceito de felicidade ficou reduzido e dependente de um padrão social, onde quem tem mais, pode mais e conseqüentemente é mais feliz, contradizendo o velho e sábio ditado que: “dinheiro não traz felicidade”. Porém, a própria história tem nos mostrado que a felicidade é um desafio interno, num processo de auto-conhecimento e à forma como reagimos aos fatores externos de nosso dia-a-dia. A intensidade dos momentos de alegria, prazer e euforia tornaram-se medidores de felicidade, deixando em segundo plano os momentos de paz, de reflexão, de caridade, de paciência e tantos outros e infinitos acontecimentos que preenchem nosso dia, promovendo nossa interação com o meio e nos fazendo reagir das formas mais distintas possíveis. Porém, quanto mais se estuda a mente humana mais em moda fica a velha frase, revelando formulas fáceis para essa busca desmedida e incansável do homem. Autores e editoras faturam milhões todos os anos com a venda de novas receitas para essa eterna busca. Sem compreender esse universo de 14 bilhões de células e uma possibilidade infinita de conexões e percepções, nos homens temos sofrido com medos, angustias, enfermidades e tantos outros males que nos acompanham. Verdadeiros fantasmas a nos rondar, e ao menor descuido rouba-nos o maior de todos os bens, a felicidade que nem sabíamos possuir. Pois, é...! A vida tem dessas coisas. Quantas vezes só damos valor a alguém ou alguma coisa quando a perdemos. A maioria de nós nasce equipado com todos os mecanismos para sentir-se feliz, porém ao longo do aprendizado da vida mudamos a regulagem de nossos sistemas. E, aquela velha capacidade de se divertir com as pequenas coisas, fica no passado embolorado da infância. Toda felicidade que há a nossa volta e dentro de nós não precisa ser ignorada em função de sonhos maiores. Podemos sonhar, planejar, conquistar, num constante estado de alegria e gratidão. Como conseguir isso...? Tentando! |
| |
| Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 13:52:49 |
| (0) Comentário | Enviar por e-mail |
|
02-05-2008
O CONFLITO DA CRIAÇÃO

No abismo negro e profundo do vazio, o silêncio. Tudo é quieto, contido. Uma mansidão mórbida reina por todos os lados. Não há guerras ou conflitos. A paz aglomera os elementos num único organismo, cada vez mais compacto e pesado. Sua força infinitamente grande parece fundi-los no mesmo objetivo: estarem juntos, quietos e em paz. Será...? Então, a paz torna-se sufocante, entediante, pequena demais para tantos elementos. E num grito de liberdade, os limites se rompem liberando toda energia contida, produzindo o maior de todos os ruídos, viabilizando um universo de criações. O primeiro pulsar, a primeira vibração, cadência que percorreu milênios, orientando, coordenando a origem de tudo. Sob sua regência mágica, divina, a vida aprende a pulsar nesse mesmo ritmo. Nascidos do caos, somos seus herdeiros, e talvez por isso falamos e buscamos tanto a paz. Por mais que tentamos, é muito difícil para nós exercê-la, pois necessitamos dos conflitos para produzirmos, para evoluirmos, para transformarmos. Somos um pequeno Big Bang orgânico vivendo profundas transformações físicas, emocionais e espirituais. Desde o seu nascimento, nosso mundinho só galgou grandes mudanças por meio de conflitos naturais e mecânicos. A terra só se tornou habitável após o caos da organização climática. Nós homens surgimos depois da extinção dos dinossauros. Aprendemos a respeitar fronteiras por conhecermos a represária do vizinho. Conquistamos direitos através de lutas civis e homéricas revoluções. O avanço tecnológico nasceu para dar suporte às grandes guerras. Enfim, todas as conquistas parecem geradas no útero das desavenças, trazendo algo de positivo como recompensa. Quantas vezes, após sofridos desentendimentos, encontramos o equilíbrio satisfatório, mesmo que momentâneo. Amigos, famílias e sociedades inteiras buscam o ajuste, e para tanto percorrem a trilha do desassossego, chocando saberes, crenças, ideologias, desejos e toda a sorte de sentimentos. É como se a humanidade estivesse se doutorando através de todas as dores possíveis, aprendendo a ser melhor através do seu pior. Apesar de irônico, os exemplos estão aí, em todo canto e lugar. Nem é preciso buscar na história, basta vislumbrar nosso próprio ambiente familiar ou de trabalho. Quando não estamos brigando, lutando, disputando com alguém ou alguma situação, estamos conflitando intimamente com nossas indecisões, medos, arrependimentos e emoções. Parece que ainda não conhecemos o verdadeiro sentido da paz, talvez por não fazer parte de nossa índole genética. Assim, a temos como algo surreal, envolta em uma áurea mística e que só os mais evoluídos são capazes de alcançá-la e regozijar-se com sua aparente monotonia. Talvez chegue o momento em que aprenderemos a evoluir sem o auxílio das guerras. Quem sabe, quando chegarmos ao limite de saturação de todos os conflitos, poderemos implodir num Big Bang inverso conhecendo o reagrupar dos elementos, saboreando as virtudes misteriosas da PAZ. |
| |
| Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 11:37:04 |
| (2) Comentários | Enviar por e-mail |
|
|
|
|
| LUXÚRIA |
| --------------------------- |
|
|
|
|