22-07-2008
REALIDADE: EXISTE?

O sol a cume castiga o caminhante que, cambaleando, se lança através das tórridas areias. O infinito seco estende-se por todas as direções, tremulando um aviso de morte. O hálito quente da areia envolve e absorve nosso personagem, que sabe estar sendo bebido pela sede do deserto. Em seu desespero, persiste, certo de que encontrará água. E, para seu alívio, lá adiante, a salvação finalmente aparece. Um oásis vivo e brilhante sinaliza, convidando-o. Então ele parte, ávido, quase sem acreditar. Suas pernas marcham forçando seus limites, pois logo poderá descansar, matar a sede e viver. Mas, quanto mais se aproxima de sua esperança de vida, mais ela se afasta. E, no longe, seu oásis permanece realidade de uma necessidade sua. Como dizer que não é verdade, se ele vê com requinte de detalhes? A pergunta então, surge: o que é real? O conceito de realidade divaga uma suposta verdade que pode ser testada e comprovada repetidas vezes de modo científico. Porém, a meu ver, a realidade escapa a qualquer tentativa de rotulação, visto que nossa percepção, apreensão e compreensão dos fatos são limitadas por nossos parcos sentidos. A beleza delicada de uma rosa esconde um intrincado mosaico de células e filamentos que nossa visão não é capaz de perceber. No entanto, as células estão lá, bem como os átomos que as compõem. A realidade é algo que independe de nossas vontades ou entendimentos. Uma pedra é uma pedra porque assim a percebemos e criamos um conceito para descrevê-la e identificá-la. Porém, se tivéssemos uma visão microscópica provavelmente a veríamos de uma perspectiva no mínimo diferente. E, na outra tangente, se nossa visão fosse telescópica, talvez consideraríamos que determinadas pedras sequer existissem, julgando sobrenatural o fato, quando tropeçássemos em alguma, pelo simples motivo de não podermos vê-las. Nossos sentidos nos revelam uma realidade parcial e que nem de longe corresponde a verdade absoluta. Dessa forma, somos limitados pela condição física, mas libertados pela força ilimitada do pensamento. E, numa tentativa de equilibrar e racionalizar o mundo a nossa volta, complementamos o que vemos, ouvimos, degustamos, cheiramos e tocamos com um toque de criatividade, no uso livre da imaginação. A realidade sensorial nos transmite uma ingênua verdade dos fatos, enquanto a realidade científica parece estar sempre em construção, obedecendo a métodos, estudos e conceitos, acreditando dessa forma entender o real. Porém, a realidade ideal é da ordem das idéias, onde cada indivíduo concebe seu universo, assim como suas verdades. Assim, a realidade em seu requinte de complexidade e mistérios segue paralela à realidade compreendida e assimilada por nós. Mundos distintos coabitando o mesmo espaço numa simbiose pacífica e necessária. Seguindo essa análise a teoria defendida no filme “Matrix” não é de toda fantasiosa, baseando-se na infinita possibilidade e flexibilidade da realidade ideal. Dessa forma o oásis de nosso caminhante era tão real quanto a areia quente sob seus pés e o sol que cozinhava seus neurônios. A água era uma realidade necessária a sua sobrevivência e, estimulado pela imagem em sua mente, caminhou, vencendo seus limites e marchando a passos precisos para encontrar-se com uma caravana. Sua salvação não fora o oásis, mas a força que o estimulou até ele. |
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| Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 12:43:22 |
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08-07-2008
VIDA DE CÃO

Numa tarde chuvosa de inverno, um cachorro amarelo, magro de ver-lhes as costelas, procura proteção na marquise de uma loja. Encolhido, tenta fazer-se invisível aos olhos humanos e ali aquecer-se do frio doído que lhe corroia as entranhas. A fome nem lhe incomodava mais, esquecida nos longos jejuns forçados. Trêmulo esconde o focinho entre as patas dianteiras devido a uma rajada mais forte de vento. Nesse momento o som de passos machucando o chão alerta nosso amigo amarelo para uma aproximação perigosa. Assustado, ergue o pescoço a tempo de ver dois membros longos e enormes marchando em sua direção, com uma fúria que não podia entender a razão. “Não, não, não fui eu! Eu não fiz nada. Só quero me proteger da chuva.” – resmungou enquanto se erguia às pressas e fugia sem olhar a que direção. Mas seus protestos soaram como pequenos latidos chorosos para os ouvidos insensíveis do homem. Nosso personagem não podia imaginar que aquele local protegido da chuva já era território do monstro do pé grande. E, na sua agonia em afastar-se, atropelou um transeunte, quase o levando ao chão. Outros gritos e novos xingamentos foram lançados, reverberando em seus tímpanos como urros ameaçadores e aterrorizantes. Com o pequeno coração a latejar mais forte, corria sem olhar para trás, desviando-se dos obstáculos e clamando por um lugar seguro. A certa distância, a movimentação de humanos diminuiu, e ele, então, parou de correr, observando à volta. A chuva caía ininterrupta, encharcando-o até os ossos. Do outro lado da rua um galpão aparentemente abandonando, oferecia um quente e calmo abrigo. Atento, olhou as laterais e, como nenhum monstro rolador corria pela rua, atravessou rapidamente. A grande porta estava aberta, e o calor acolhedor que de lá emanava o convidava para um momento de descanso. Feliz da vida, sacudiu o excesso d’água da pelagem curta e respirou aliviado, agradecido por aquele achado. Porém, para seu desassossego, o local não estava vazio. Alguns daqueles seres chamados humanos encontravam-se ali. Embora estes fossem bem menores e menos assustadores, não sabia se também seriam agressivos. Desconfiado, parou próximo à saída. Os pequenos humanos logo perceberam sua presença e um deles inclinou-se amistosamente, aquecendo de esperança o coração de nosso amigo. Com o rabo encolhido entre as pernas, iniciou uma lenta aproximação, mas na metade do cominho percebeu a mão erguida dos outros dois e, na seqüência, dois projeteis voaram em sua direção. Conseguiu desviar-se de uma das pedras, mas a outra acertou-lhe o traseiro. A sensação de agulhas penetrando-lhe a carne vinha do local atingido. “Socorro! Esses são ainda piores!” – gritou mais uma vez, enquanto fugia desenfreado, ainda mais assustado e triste. Na corrida, lançou-se pelo meio da rua, não se dando conta do veículo em sua direção. O brilho do farol, o ruído das rodas contra o chão e água sendo lançada por todos os lados desnortearam-no, vendo-se frente a frente com o monstro rolador, o perigo das estradas. Em meio à confusão não sabe como conseguiu esgueirar-se para a outra calçada, sumindo numa ruela enquanto o veículo amassava seu pára-choque contra o poste. Sentindo-se rejeitado e causador de tanta desordem, desejou não existir. Se não havia lugar no mundo para ele, o que faria? Para onde ir? Misturando suas lágrimas às gotas da chuva, vagou sem direção, buscando no longe um refúgio. Cansado, diminuiu a marcha ao ver um vulto se aproximar vagarosamente. O humano apesar de idêntico a todos os outros, parecia diferente. Seus movimentos eram suaves, seu andar leve como se nada pesasse. Nas mãos trazia um embrulho de onde fugia um aroma delicioso, acordando seu estômago ávido por alimento. Curioso, meio que hipnotizado, parou para entender o que acontecia. E, em meio a sua descrença, recebeu ração num canto protegido da chuva, além de carinho e atenção daquela alma verdadeiramente humana. Saciado, dormiu com estômago e alma aquecidos.
“Quantos de nós dobramos nossos joelhos diante dos altares de nossas crenças e ao nos erguermos chutamos o primeiro cachorro que cruza nosso caminho? Quantos de nós fazemos doações vultosas para alguma campanha beneficente só para sermos admirados e invejados? Quantos de nós tentamos nos esconder em nossas falsas ideologias? Mas..., nem tudo está perdido. Acredite! Alguns são verdadeiramente bons. VIDA LONGA A ESSES.” |
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| Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 09:06:33 |
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| LUXÚRIA |
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