18-04-2008

  INAIÁ, A LENDA

 

O sol surgido no horizonte expande seus braços de luz, penetrando na mata, vasculhando os recantos, despertando os homens nus. Respondendo ao chamado do sol, Inaiá abre os olhos. Um sorriso discreto molda seu rosto jovem, num bom dia interno enquanto se espreguiça suavemente. De todo o seu ser pulsa felicidade; um contentamento bobo só visto nos amantes. Contaminada pela química do amor, ela ergue-se à procura do amado, para a felicidade de mais um dia, como todos os dias deveriam ser.

Migrando de um ponto a outro da aldeia, procurou e indagou, aflita. Os olhos buscavam, entre os muitos rostos, pela pele clara, os cabelos com o brilho do sol, os olhos azuis e a face barbada de Diogo, o homem que viera do além-mar para preencher seu coração.

Com medo da dor terrível que seria perdê-lo, Inaiá parou de súbito, assaltada pela lembrança. Um silêncio a rodeou como se a floresta parasse para ouvir seus pensamentos:“O grande barco! O mar! Terá ele ido embora?” E o que escapou de sua garganta foi um grito que toda a aldeia pôde ouvir. Esquecida do mundo à volta, correu em direção à praia e ao acalento da sua dor. Machucando o chão na firmeza dos passos, não sentia o próprio corpo, fustigada pelo desejo maior: encontrar Diogo.

¾ “Não! Diogo precisa de Inaiá como Inaiá precisa de Diogo. Ele jamais me abandonaria.”

Nossa personagem dizia para si própria tentando conter o coração apertado. Vencendo a trilha com a rapidez que suas pernas podiam levá-la, relembrava o primeiro encontro:

A água ainda escorria farta de seus cabelos, ao emergir do lago, quando deparou-se com o olhar azul a espioná-la. O medo foi o primeiro sentimento a fazê-la reagir. O estranho, de pele clara, pêlos espalhados pelo rosto e o corpo coberto por panos coloridos parecia um felino a rondar a presa: ela. Inaiá sentiu o coração pulsar, latejando para que fugisse. Fugisse do improvável que seria seu destino, imposto pelo estranho. Mas o desejo da fuga não durou, já que a curiosidade foi maior. Inaiá logo se deu por vencida, percebendo a vontade de paz do estranho. Fascinada, tocava e se deixava tocar, na ânsia de desvendar os mistérios daquele estranho de olhos azuis. Num diálogo mudo, amaram-se desde o primeiro momento. E sem lembrar-se como, amaram-se sobre a relva, protegidos pela mata, abençoados pela natureza.

Arrancando-a da lembrança saudosa, o mar surge em sua retina, grande e impiedoso. O barco, que jazia sempre passivo na mesma orla, agora tinha as velas estufadas e seguia, lento, rumo ao mar do horizonte. O rastro manso deixado pela embarcação parecia acenar, num adeus. Parada à beira do precipício que a separava da orla, Inaiá duvidou, mais uma vez, que Diogo estivesse no barco que partia. Mas uma voz da tribo informou-lhe:

         ¾ Diogo foi embora.

As poucas palavras do índio soaram para Inaiá como uma sentença de morte. Uma dor uniforme tomou todo o seu ser. O universo selvagem e vibrante à volta de súbito perdeu a cor e o viço. Precisava de sua outra metade ou estaria fadada à morte em vida ¾ condenação pior para os amantes. Assim, lançou-se morro abaixo, fustigando o vento, desafiando o tempo e a distância. Mergulhando na água salgada, venceu as primeiras ondas. Nadou com a vontade de um atleta, mergulhou ampliando a distância da praia, voltou a nadar com a fúria da revolta, mas seus braços cansaram. Suas lágrimas misturavam-se as águas e abandonada pelas forças, afundou, engolindo, engolindo a última dor.

E nossa personagem nunca foi encontrada, desaparecendo no rastro de seu sentimento. Esta é apenas mais uma história entre tantas que a velha Porto Seguro-BA oferece, lembrando-nos que a recém batizada “Costa do Agito” (Caraíva, Trancoso, Arraial D’Ajuda e Porto Seguro), tem algo mais que axé e sua gastronomia carregada no dendê, pimenta e leite de coco. Nas mesmas praias onde erguem-se as famosas barracas, história e lenda se misturam.

 
  Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 17:13:58
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