04-11-2009

  LUXÚRIA

A chama da vela tremula suavemente irradiando calor e luz pelo exíguo ambiente. Mãos doloridas pela insistência da escrita preenchem folhas e folhas de papiro. Nosso escriba está exausto, mas é no ar fresco e silencioso da noite que ele comunga com uma inspiração quase divina.  Sua mente e sua mão estão em perfeita sintonia. Nada interfere. Ele está longe, envolvido e dominado pelos próprios pensamentos.

Na solidão calma de sua reclusão, ergue os olhos para molhar mais uma vez a pena no tinteiro. Nesse momento pensou ter visto um movimento, uma sombra no canto mais escuro do quarto. Resgatando todos os sentidos alertou-se para o desconhecido, talvez uma ameaça, um perigo...

Então, o vulto moveu-se em sua direção, travando-lhe o ar na garganta. Não estava só. E agora, o que fazer? Pensou, assustado e sem ação. Antes que pudesse ordenar os pensamentos os contornos curvilíneos da cintura e do quadril tomaram o ângulo de sua visão. Deixando o lábio inferior pender observou a ampla planície do abdômen, a cavidade umbilical e o misterioso triangulo de pêlos. Um calor incontido e local ativou suas células penianas, como se seu membro tivesse vida própria. Assaltado pela dormência súbita em seu órgão sexual, ergueu os olhos para os seios fartos que desafiavam a gravidade. A pele nua tingida no mais puro desejo vinha em sua direção. Sexo, ela exalava, oferecia e buscava.

Arfante, nosso personagem lançou um olhar de vencido para a face linda que vinha ao seu encontro. Ele não podia resistir. Não havia oração que o salvasse. Dominado pelo desejo maior em seu corpo, ergueu uma das mãos para atestar a maciez da pele. E ele grita, acordado e queimado pela chama da vela que se interpunha entre ele e a imagem de sua própria mente.

Mais uma vez Eváglio era sabotado pelos próprios pensamentos. Mesmo recluso no deserto egípcio, o monge não conseguia livrar-se do pecado da luxúria, tão enraizado em seu ser como as células de seu corpo. Sua luta por tornar-se puro parecia uma tarefa descomunal, e quanto mais se distanciava das ameaças e tentações mais elas pareciam procurá-lo.

O que Eváglio não podia conceber é que todo o pecado do qual tentava livrar-se estava dentro dele, e quanto mais se isolava mais vulnerável ficava às próprias tentações. Foi pelas mãos dele que os 7 pecados capitais foram redigidos e listados pela primeira vez no ano de 375 dC. Ao contrário do que muitos imaginam, os 7 pecados não podem ser encontrados na Bíblia. Essa lista foi mais tarde, no século VI, reformulada pelo papa Gregório Magno, definindo: a gula, a luxúria, a ira, a avareza, a soberba, a preguiça e a inveja como os grandes male que roubariam as almas dos homens. Mais tarde, no século XIII, São Tomás de Aquino detalhou cada um dos 7 pecados capitais, dando mais força ao sentimento de pecar.

A luxúria, em particular, sugere um desejo desordenado que tem como intuito saciar uma necessidade sexual.  O pecador pensa apenas no próprio prazer que, momentâneo, proporciona uma determinada satisfação, mas que logo ressurgirá, exigindo mais e outra vez mais.

Nas culturas antigas o sexo e suas formas eram referências para Deuses, lendas, fertilidade, abundância, sorte e todo tipo de características positivas, pois era através do sexo que o ciclo da vida se repetia.

Porém, com o surgimento do cristianismo a sexualidade passa a ser vista com algo sujo e abominável, a porta por onde o mau domina homens e mulheres. O ato sexual só é aceito como forma de procriação e tudo que foge dessa regra é pecar na luxúria.

Mas, por mais terríveis que fossem as punições e inúmeras as regras e castrações, o ser humano nunca conseguiu deixar de pecar. Mesmo nas comunidades puritanas que se propunham a um modo de vida em comunhão com Deus, a luxúria nunca foi banida.

Já na cultura indiana, sexo e religião se confundem, ao passo que para o povo árabe o limite para a luxúria flexiona-se, permitindo ao homem quantas mulheres ele pode manter, e nunca o inverso.

Nas diversas sociedades ao redor do globo percebemos entendimentos distintos para o pecado da luxúria, variando de modo e intensidade.

E, numa análise rápida e superficial, podemos concluir que a luxúria é um pecado criado pelo homem na tentativa vã de frear nossa característica nata, o desejo sexual, fato que garante a continuidade da espécie. Enfim, o sexo, quando consentido e desejado, não deveria ser rotulado de pecado, ou então deveríamos dar outra conotação para luxúria. Afinal, se luxúria não é crime, por que então deve ser pecado? E, se assim for, somos todo pecadores, pois basta a vontade velada como a de nosso escriba do início da história para estarmos pecando. Basta o exercício do pensamento.

Dessa forma quem nunca teve um único sonhozinho erótico deve preocupar-se. Não me parece organicamente normal nunca ter pecado na luxúria.

 
  Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 12:51:16
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   09-02-2009

  VÍRUS DA ALEGRIA

Ninguém nos livra do desejo

Um vírus poderoso que causa angústia e ansiedade

Ataca o cérebro com sede voraz

Salta aos olhos num brilho inquietante

Nem todos sofrem desse mal

Alguns se contentam  com a paz

Mas, nos tempos quentes de fevereiro

Quando a lua reluz iluminando a avenida, as pessoas contaminadas saem às ruas em busca da cura

O alívio vem em overdose de música

O corpo das vítimas sacodem-se num ritmo sensual e inovador

A insanidade dos enfermos é tanta que andam em bandos, num multicolorido de credos e raças

Ali mesmo alguns curiosos inocente são infectados, flagrados agitando-se com dissimulada discrição

Sem piedade o vírus se alastra, não poupando idade, contagiando a todos com a alegria do carnaval

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 18:29:17
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   22-08-2008

  QUE RAIVA!

Por um momento o ar fica preso na garganta. O coração dispara. As pupilas dilatam e o nível de adrenalina fervilha no sangue, pondo-nos em alerta. Algo foi violado, roubado de nossos direitos. Os limites invisíveis e delicados do caráter humano são facilmente rompidos e então a raiva surge como mecanismo de defesa. A mente é invadida por pensamentos de injustiça, humilhação, negação, rejeição entre outros, consumindo-nos num processo de dor que muitas vezes nos levam a agir com intolerância, cinismo, tristeza, amargura, fúria, frustração e ódio.

A emoção ministra todo o pensamento que, num processo quase suicida, reproduz todo o sofrimento vivido ou por advir. O presente é esquecido, atropelado, renegado em função da realidade doída e inconscientemente mantida. Fantoches de irracionalidade seguimos arrastando o pesado fardo por longos períodos, quando não, por uma vida inteira.

Mesmo quando os sintomas da raiva são contidos os estragos não são menores. Além dos prováveis males orgânicos, seu campo energético é capaz de afetar o ambiente à volta, alterando o comportamento de colegas, parceiros, amigos e familiares.

Nossas emoções tem uma mente própria que pode ter opiniões bastante diversas das que tem a nossa mente racional.” – diz Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional.

O texto ainda demonstra que no processo de auto defesa os circuitos mentais buscam atalhos, desviando-se completamente do neocórtex, onde é traduzida para a linguagem do cérebro, indo do tálamo para a amígdala, que produz uma resposta mais rápida, porém menos precisa da situação.

Podemos concluir que a raiva, na maioria dos casos, nasce de um impulso mas é alimentada pela teimosia do pensamento, que potencializa sua força. Ao contrário de outros sentimentos, como a tristeza, a raiva energiza sua vitima compelindo-a a uma reação.

Maha Gosananda, monge Cambojano disse: “O ódio, deveras, nunca dissipou o ódio. Só o amor dissipa o ódio.” É fácil concordar com esta máxima quando no equilíbrio da razão e na paz do pensamento. Porém como controlar os impulsos sem sofrer?

A filosofia budista - bem como diversos autores - converge para o mesmo desfecho, concordando que a saída mais fácil para o controle da raiva é trazer à luz da consciência toda a aflição, direcionando o pensamento de forma contrária aos sentimentos que a justificam.

Assim, podemos deduzir que a raiva só existe em nível de pensamento, e que só pode ser dominada através deste, tornando-nos senhores de nossas emoções. A tarefa é quase homérica, mas como somente as maiores conquistas glorificam os homens, fica o desafio: QUE SUPEREM-SE OS MELHORES!

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 17:15:53
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   11-08-2008

  A MENTIRA NOSSA DE CADA DIA

         

         Ao defender a verdade, deixamos evidente a firme e constante presença da mentira ─ mecanismo de defesa que aprendemos a usar de todas as formas desde tenra idade. Quem diz nunca ter mentido, mente na simples afirmação, pois é fato que os seres humanos viveriam em constantes conflitos caso as verdades fossem arbitrariamente expostas, mesmo porque, toda verdade é questionável.

As características individuais e as influências recebidas do meio onde se vive pré-determinam o comportamento de cada um, moldando um indivíduo único, apto a se manter da melhor forma possível, burlando os inconvenientes, os empecilhos, as dores e os conflitos, para um caminhar mais livre na sua evolução natural.

Ao usarmos da mentira e sairmos ileso, habituamo-nos a ela de tal forma que podemos mentir diariamente e sem perceber, certos de estarmos promovendo o bem, harmonizando as relações. Quem nunca disse um falso elogio para um conhecido ou amigo? Ou prometeu algo que não cumpriria a um filho ou sobrinho? Ou, ainda, tendenciou alguma história para beneficiar-se? Assim, mentir torna-se uma necessidade, uma escolha ponderada entre impor ou aceitar uma vontade ou opinião contrária a nossa. Quando usada com habilidade e ponderação, a mentira pode gerar algum benefício, um estímulo, um contentamento, evitando problemas maiores.

Porém, pecamos ao esquecermos que a mentira não tem sustentabilidade e, quando atropelada, revela-se no momento menos oportuno, delatando e humilhando sem o menor perdão, o seu autor.

Ao longo da escola da vida, muitos se formam, bacharelando-se na disciplina, verdadeiros mestres na arte de mentir e convencer, galgando altos postos na cadeia social. Para estes, a mentira torna-se o pilar de sua sustentação, tendo constantemente a necessidade de aprimorar as técnicas e fomentar as próprias crias, pois, caso contrário, estas se perdem, já que não existem de fato.

A cada quatro anos, um número cada vez maior de mentirosos surgem, expondo-se em programas de TV, rádios, jornais, panfletos promocionais e palanques, explicitando suas verdadeiras mentiras, grandes e pequenas, a depender da ousadia e do ego de quem a defende.

Ao mentir por mentir, todos nós pecamos, e não adianta querer tirar o corpo fora. A mentira não pode e não deve interferir na qualidade de vida do próximo, roubando deste direitos naturais e universais. Como ainda não dispomos de um “mentirômetro” portátil para detectar os mentirosos profissionais, caberia ao rigor das leis medir suas falsas promessas, caso estas não fossem cumpridas. Pois a mentira, por mais verdadeira que pareça e o provável bem que desencadeie, ainda assim continuará sendo mentira.

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 18:22:52
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   22-07-2008

  REALIDADE: EXISTE?

O sol a cume castiga o caminhante que, cambaleando, se lança através das tórridas areias. O infinito seco estende-se por todas as direções, tremulando um aviso de morte. O hálito quente da areia envolve e absorve nosso personagem, que sabe estar sendo bebido pela sede do deserto. Em seu desespero, persiste, certo de que encontrará água.

E, para seu alívio, lá adiante, a salvação finalmente aparece. Um oásis vivo e brilhante sinaliza, convidando-o. Então ele parte, ávido, quase sem acreditar. Suas pernas marcham forçando seus limites, pois logo poderá descansar, matar a sede e viver. Mas, quanto mais se aproxima de sua esperança de vida, mais ela se afasta. E, no longe, seu oásis permanece realidade de uma necessidade sua.

Como dizer que não é verdade, se ele vê com requinte de detalhes? A pergunta então, surge: o que é real? O conceito de realidade divaga uma suposta verdade que pode ser testada e comprovada repetidas vezes de modo científico. Porém, a meu ver, a realidade escapa a qualquer tentativa de rotulação, visto que nossa percepção, apreensão e compreensão dos fatos são limitadas por nossos parcos sentidos.

A beleza delicada de uma rosa esconde um intrincado mosaico de células e filamentos que nossa visão não é capaz de perceber. No entanto, as células estão lá, bem como os átomos que as compõem. A realidade é algo que independe de nossas vontades ou entendimentos.

Uma pedra é uma pedra porque assim a percebemos e criamos um conceito para descrevê-la e identificá-la. Porém, se tivéssemos uma visão microscópica provavelmente a veríamos de uma perspectiva no mínimo diferente. E, na outra tangente, se nossa visão fosse telescópica, talvez consideraríamos que determinadas pedras sequer existissem, julgando sobrenatural o fato, quando tropeçássemos em alguma, pelo simples motivo de não podermos vê-las.

Nossos sentidos nos revelam uma realidade parcial e que nem de longe corresponde a verdade absoluta. Dessa forma, somos limitados pela condição física, mas libertados pela força ilimitada do pensamento. E, numa tentativa de equilibrar e racionalizar o mundo a nossa volta, complementamos o que vemos, ouvimos, degustamos, cheiramos e tocamos com um toque de criatividade, no uso livre da imaginação.

A realidade sensorial nos transmite uma ingênua verdade dos fatos, enquanto a realidade científica parece estar sempre em construção, obedecendo a métodos, estudos e conceitos, acreditando dessa forma entender o real. Porém, a realidade ideal é da ordem das idéias, onde cada indivíduo concebe seu universo, assim como suas verdades.

Assim, a realidade em seu requinte de complexidade e mistérios segue paralela à realidade compreendida e assimilada por nós. Mundos distintos coabitando o mesmo espaço numa simbiose pacífica e necessária. Seguindo essa análise a teoria defendida no filme “Matrix” não é de toda fantasiosa, baseando-se na infinita possibilidade e flexibilidade da realidade ideal.

Dessa forma o oásis de nosso caminhante era tão real quanto a areia quente sob seus pés e o sol que cozinhava seus neurônios. A água era uma realidade necessária a sua sobrevivência e, estimulado pela imagem em sua mente, caminhou, vencendo seus limites e marchando a passos precisos para encontrar-se com uma caravana. Sua salvação não fora o oásis, mas a força que o estimulou até ele.

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 12:43:22
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   08-07-2008

  VIDA DE CÃO

Numa tarde chuvosa de inverno, um cachorro amarelo, magro de ver-lhes as costelas, procura proteção na marquise de uma loja. Encolhido, tenta fazer-se invisível aos olhos humanos e ali aquecer-se do frio doído que lhe corroia as entranhas. A fome nem lhe incomodava mais, esquecida nos longos jejuns forçados. Trêmulo esconde o focinho entre as patas dianteiras devido a uma rajada mais forte de vento. Nesse momento o som de passos machucando o chão alerta nosso amigo amarelo para uma aproximação perigosa. Assustado, ergue o pescoço a tempo de ver dois membros longos e enormes marchando em sua direção, com uma fúria que não podia entender a razão.

“Não, não, não fui eu! Eu não fiz nada. Só quero me proteger da chuva.” – resmungou enquanto se erguia às pressas e fugia sem olhar a que direção.

Mas seus protestos soaram como pequenos latidos chorosos para os ouvidos insensíveis do homem. Nosso personagem não podia imaginar que aquele local protegido da chuva já era território do monstro do pé grande. E, na sua agonia em afastar-se, atropelou um transeunte, quase o levando ao chão. Outros gritos e novos xingamentos foram lançados, reverberando em seus tímpanos como urros ameaçadores e aterrorizantes.

Com o pequeno coração a latejar mais forte, corria sem olhar para trás, desviando-se dos obstáculos e clamando por um lugar seguro. A certa distância, a movimentação de humanos diminuiu, e ele, então, parou de correr, observando à volta. A chuva caía ininterrupta, encharcando-o até os ossos. Do outro lado da rua um galpão aparentemente abandonando, oferecia um quente e calmo abrigo.

Atento, olhou as laterais e, como nenhum monstro rolador corria pela rua, atravessou rapidamente. A grande porta estava aberta, e o calor acolhedor que de lá emanava o convidava para um momento de descanso. Feliz da vida, sacudiu o excesso d’água da pelagem curta e respirou aliviado, agradecido por aquele achado.

Porém, para seu desassossego, o local não estava vazio. Alguns daqueles seres chamados humanos encontravam-se ali. Embora estes fossem bem menores e menos assustadores, não sabia se também seriam agressivos. Desconfiado, parou próximo à saída. Os pequenos humanos logo perceberam sua presença e um deles inclinou-se amistosamente, aquecendo de esperança o coração de nosso amigo. Com o rabo encolhido entre as pernas, iniciou uma lenta aproximação, mas na metade do cominho percebeu a mão erguida dos outros dois e, na seqüência, dois projeteis voaram em sua direção. Conseguiu desviar-se de uma das pedras, mas a outra acertou-lhe o traseiro. A sensação de agulhas penetrando-lhe a carne vinha do local atingido.

“Socorro! Esses são ainda piores!” – gritou mais uma vez, enquanto fugia desenfreado, ainda mais assustado e triste.

Na corrida, lançou-se pelo meio da rua, não se dando conta do veículo em sua direção. O brilho do farol, o ruído das rodas contra o chão e água sendo lançada por todos os lados desnortearam-no, vendo-se frente a frente com o monstro rolador, o perigo das estradas. Em meio à confusão não sabe como conseguiu esgueirar-se para a outra calçada, sumindo numa ruela enquanto o veículo amassava seu pára-choque contra o poste.

Sentindo-se rejeitado e causador de tanta desordem, desejou não existir. Se não havia lugar no mundo para ele, o que faria? Para onde ir? Misturando suas lágrimas às gotas da chuva, vagou sem direção, buscando no longe um refúgio.

Cansado, diminuiu a marcha ao ver um vulto se aproximar vagarosamente. O humano apesar de idêntico a todos os outros, parecia diferente. Seus movimentos eram suaves, seu andar leve como se nada pesasse. Nas mãos trazia um embrulho de onde fugia um aroma delicioso, acordando seu estômago ávido por alimento. Curioso, meio que hipnotizado, parou para entender o que acontecia. E, em meio a sua descrença, recebeu ração num canto protegido da chuva, além de carinho e atenção daquela alma verdadeiramente humana. Saciado, dormiu com estômago e alma aquecidos.

“Quantos de nós dobramos nossos joelhos diante dos altares de nossas crenças e ao nos erguermos chutamos o primeiro cachorro que cruza nosso caminho? Quantos de nós fazemos doações vultosas para alguma campanha beneficente só para sermos admirados e invejados? Quantos de nós tentamos nos esconder em nossas falsas ideologias? Mas..., nem tudo está perdido. Acredite! Alguns são verdadeiramente bons. VIDA LONGA A ESSES.”

 

 
  Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 09:06:33
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   06-05-2008

  EMPRESÁRIOS DA FÉ

“Antes de fluir na narrativa, gostaria de lembrar que não faço referencia a Bispos, Pastores, Padres ou Religiosos, mas não posso impedir que a carapuça seja tomada por um ou outro. Por isso, arrisque-se quem quiser.”

 

 

  A melodia, na voz perfeita da cantora, emociona os ouvintes, carregando-os num parcial transe. Envoltos pela energia invisível desprendida pela música entregam-se sem medo, afinal, estão entre iguais, irmãos na mesma fé. Aos poucos a música torna-se uma melodia de fundo e, nesse momento, a voz do palestrante, condutor do grupo em questão, soa baixa, proferindo palavras em oração. De olhos fechados e com uma das mãos no peito, transparece sua humildade e submissão a Deus, a quem eleva suas preces. O timbre, inicialmente cálido, vai ganhando força numa cadência crescente e angustiante, suplicando, implorando num autoritarismo disfarçado que Deus atenda a seus pedidos. Em meio à oração sistemática do falante, rompe, de pontos distintos, a intervenção dos ouvintes fiéis: Aleluia! – grita um. Glória a Deus! – diz outro. E, fundidos na mesma emoção, são convidados a cantar num só coro enquanto fazem suas singelas doações. Revigorados na mesma fé, os que podem doam e os que não podem, também, afinal, Deus lhes dará em dobro, assim explicou o palestrante.


  Convertidos e submissos, confiam e temem ao homem que parece conhecer tão bem a palavra de Deus, proferindo-a sempre com tamanha convicção. Quem irá contestar aquele que fala em nome do amor de Deus e carrega consigo tantos seguidores? Quem irá negar-lhe de seu tempo e dinheiro, se é tudo em função de um bem maior, à vontade de Deus? Quem se oporá a uma palavra bem colocada sob o auspício do Senhor?


  A cena se repete em todos os cantos e recantos do país, despertando a emoção, confundindo-a com a fé. Numa terapia coletiva, comandada pelos profissionais da oração, os indivíduos são convidados a depositar suas esperanças na provisão divina. Caso merecedores, alcançarão a graça do milagre, na benção da boa saúde, na família, no amor, no bom salário e em tudo o mais que foi desejado.

  Admiráveis, estes homens da fé são capazes de estimular o potencial de cada um enquanto controlam essa grande massa da sociedade, muitas vezes reprimida e excluída. É bom lembrar que cada um veste o número que lhe cabe, ou seja, cada um faz o que é melhor para si conforme seu grau de evolução, necessidade e livre-arbítrio.

A meu ver, vale mais um céu “cheio”, de duvidosas intenções do que um inferno lotado de boas intenções. O mau uso da palavra de Deus é por risco e responsabilidade daquele que fala e não do ouvinte que a usa como mecanismo de comunhão.


  Um homem acalentado, seguro de sua religião e inserido num grupo que comunga um mesmo pensamento é capaz de um equilíbrio maior, aceitando os dissabores da vida como um desafio, uma provação que a sua fé o fará vencer. Duvida?


  E, mais uma vez, admiro, também os seguidores da fé capazes sempre do bem, apoiados em suas crenças incontestáveis. Então, penso se a intervenção divina não tem aí o seu dedinho, lembrando ao homem que, por mais impuras que sejam suas intenções e ações, ele sempre dará um jeito de plantar o bem no coração daqueles que o acolherem, esteja este a onde e com quem estiver.

Aleluia!





 
  Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 17:10:51
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   02-05-2008

  FELICIDADE, A ETERNA BUSCA

Aristóteles (384 a.C), no seu tempo, já dizia que a maior meta do homem é a felicidade. Mas, como alcançá-la....?

Ao longo da nossa trajetória, o homem dedicou-se sempre a grandes objetivos, ampliando territórios, subjugando outros povos, guerreando de todas as formas para conquistar e manter-se no poder, crente que tão palpável quanto o acúmulo de seus bens materiais, a felicidade, então plena, estaria ali.

Já, o renomado filósofo grego, Tales de Mileto (640 a.C), dizia que a felicidade consistia em gozar de boa saúde, possuir bens materiais em quantidade moderada e não viver uma vida de ócio e ignorância. Porém, como limitar os desejos, não ser seduzido pelo ócio, fugir do conforto da ignorância e ter um corpo sempre saudável?

O conceito de felicidade ficou reduzido e dependente de um padrão social, onde quem tem mais, pode mais e conseqüentemente é mais feliz, contradizendo o velho e sábio ditado que: “dinheiro não traz felicidade”.

Porém, a própria história tem nos mostrado que a felicidade é um desafio interno, num processo de auto-conhecimento e à forma como reagimos aos fatores externos de nosso dia-a-dia.

A intensidade dos momentos de alegria, prazer e euforia tornaram-se medidores de felicidade, deixando em segundo plano os momentos de paz, de reflexão, de caridade, de paciência e tantos outros e infinitos acontecimentos que preenchem nosso dia, promovendo nossa interação com o meio e nos fazendo reagir das formas mais distintas possíveis.

Porém, quanto mais se estuda a mente humana mais em moda fica a velha frase, revelando formulas fáceis para essa busca desmedida e incansável do homem. Autores e editoras faturam milhões todos os anos com a venda de novas receitas para essa eterna busca.

Sem compreender esse universo de 14 bilhões de células e uma possibilidade infinita de conexões e percepções, nos homens temos sofrido com medos, angustias, enfermidades e tantos outros males que nos acompanham. Verdadeiros fantasmas a nos rondar, e ao menor descuido rouba-nos o maior de todos os bens, a felicidade que nem sabíamos possuir.

Pois, é...! A vida tem dessas coisas. Quantas vezes só damos valor a alguém ou alguma coisa quando a perdemos. A maioria de nós nasce equipado com todos os mecanismos para sentir-se feliz, porém ao longo do aprendizado da vida mudamos a regulagem de nossos sistemas. E, aquela velha capacidade de se divertir com as pequenas coisas, fica no passado embolorado da infância.

Toda felicidade que há a nossa volta e dentro de nós não precisa ser ignorada em função de sonhos maiores. Podemos sonhar, planejar, conquistar, num constante estado de alegria e gratidão. Como conseguir isso...? Tentando!

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 13:52:49
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   02-05-2008

  O CONFLITO DA CRIAÇÃO

No abismo negro e profundo do vazio, o silêncio. Tudo é quieto, contido. Uma mansidão mórbida reina por todos os lados. Não há guerras ou conflitos. A paz aglomera os elementos num único organismo, cada vez mais compacto e pesado. Sua força infinitamente grande parece fundi-los no mesmo objetivo: estarem juntos, quietos e em paz.

Será...?

Então, a paz torna-se sufocante, entediante, pequena demais para tantos elementos. E num grito de liberdade, os limites se rompem liberando toda energia contida, produzindo o maior de todos os ruídos, viabilizando um universo de criações. O primeiro pulsar, a primeira vibração, cadência que percorreu milênios, orientando, coordenando a origem de tudo. Sob sua regência mágica, divina, a vida aprende a pulsar nesse mesmo ritmo.

Nascidos do caos, somos seus herdeiros, e talvez por isso falamos e buscamos tanto a paz. Por mais que tentamos, é muito difícil para nós exercê-la, pois necessitamos dos conflitos para produzirmos, para evoluirmos, para transformarmos. Somos um pequeno Big Bang orgânico vivendo profundas transformações físicas, emocionais e espirituais.

Desde o seu nascimento, nosso mundinho só galgou grandes mudanças por meio de conflitos naturais e mecânicos. A terra só se tornou habitável após o caos da organização climática. Nós homens surgimos depois da extinção dos dinossauros. Aprendemos a respeitar fronteiras por conhecermos a represária do vizinho. Conquistamos direitos através de lutas civis e homéricas revoluções. O avanço tecnológico nasceu para dar suporte às grandes guerras. Enfim, todas as conquistas parecem geradas no útero das desavenças, trazendo algo de positivo como recompensa.

Quantas vezes, após sofridos desentendimentos, encontramos o equilíbrio satisfatório, mesmo que momentâneo. Amigos, famílias e sociedades inteiras buscam o ajuste, e para tanto percorrem a trilha do desassossego, chocando saberes, crenças, ideologias, desejos e toda a sorte de sentimentos.

É como se a humanidade estivesse se doutorando através de todas as dores possíveis, aprendendo a ser melhor através do seu pior. Apesar de irônico, os exemplos estão aí, em todo canto e lugar. Nem é preciso buscar na história, basta vislumbrar nosso próprio ambiente familiar ou de trabalho. Quando não estamos brigando, lutando, disputando com alguém ou alguma situação, estamos conflitando intimamente com nossas indecisões, medos, arrependimentos e emoções.

Parece que ainda não conhecemos o verdadeiro sentido da paz, talvez por não fazer parte de nossa índole genética. Assim, a temos como algo surreal, envolta em uma áurea mística e que só os mais evoluídos são capazes de alcançá-la e regozijar-se com sua aparente monotonia.

Talvez chegue o momento em que aprenderemos a evoluir sem o auxílio das guerras. Quem sabe, quando chegarmos ao limite de saturação de todos os conflitos, poderemos implodir num Big Bang inverso conhecendo o reagrupar dos elementos, saboreando as virtudes misteriosas da PAZ.

 
  Publicado por Alda Andreia Therkovsky, às 11:37:04
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   18-04-2008

  INAIÁ, A LENDA

 

O sol surgido no horizonte expande seus braços de luz, penetrando na mata, vasculhando os recantos, despertando os homens nus. Respondendo ao chamado do sol, Inaiá abre os olhos. Um sorriso discreto molda seu rosto jovem, num bom dia interno enquanto se espreguiça suavemente. De todo o seu ser pulsa felicidade; um contentamento bobo só visto nos amantes. Contaminada pela química do amor, ela ergue-se à procura do amado, para a felicidade de mais um dia, como todos os dias deveriam ser.

Migrando de um ponto a outro da aldeia, procurou e indagou, aflita. Os olhos buscavam, entre os muitos rostos, pela pele clara, os cabelos com o brilho do sol, os olhos azuis e a face barbada de Diogo, o homem que viera do além-mar para preencher seu coração.

Com medo da dor terrível que seria perdê-lo, Inaiá parou de súbito, assaltada pela lembrança. Um silêncio a rodeou como se a floresta parasse para ouvir seus pensamentos:“O grande barco! O mar! Terá ele ido embora?” E o que escapou de sua garganta foi um grito que toda a aldeia pôde ouvir. Esquecida do mundo à volta, correu em direção à praia e ao acalento da sua dor. Machucando o chão na firmeza dos passos, não sentia o próprio corpo, fustigada pelo desejo maior: encontrar Diogo.

¾ “Não! Diogo precisa de Inaiá como Inaiá precisa de Diogo. Ele jamais me abandonaria.”

Nossa personagem dizia para si própria tentando conter o coração apertado. Vencendo a trilha com a rapidez que suas pernas podiam levá-la, relembrava o primeiro encontro:

A água ainda escorria farta de seus cabelos, ao emergir do lago, quando deparou-se com o olhar azul a espioná-la. O medo foi o primeiro sentimento a fazê-la reagir. O estranho, de pele clara, pêlos espalhados pelo rosto e o corpo coberto por panos coloridos parecia um felino a rondar a presa: ela. Inaiá sentiu o coração pulsar, latejando para que fugisse. Fugisse do improvável que seria seu destino, imposto pelo estranho. Mas o desejo da fuga não durou, já que a curiosidade foi maior. Inaiá logo se deu por vencida, percebendo a vontade de paz do estranho. Fascinada, tocava e se deixava tocar, na ânsia de desvendar os mistérios daquele estranho de olhos azuis. Num diálogo mudo, amaram-se desde o primeiro momento. E sem lembrar-se como, amaram-se sobre a relva, protegidos pela mata, abençoados pela natureza.

Arrancando-a da lembrança saudosa, o mar surge em sua retina, grande e impiedoso. O barco, que jazia sempre passivo na mesma orla, agora tinha as velas estufadas e seguia, lento, rumo ao mar do horizonte. O rastro manso deixado pela embarcação parecia acenar, num adeus. Parada à beira do precipício que a separava da orla, Inaiá duvidou, mais uma vez, que Diogo estivesse no barco que partia. Mas uma voz da tribo informou-lhe:

         ¾ Diogo foi embora.

As poucas palavras do índio soaram para Inaiá como uma sentença de morte. Uma dor uniforme tomou todo o seu ser. O universo selvagem e vibrante à volta de súbito perdeu a cor e o viço. Precisava de sua outra metade ou estaria fadada à morte em vida ¾ condenação pior para os amantes. Assim, lançou-se morro abaixo, fustigando o vento, desafiando o tempo e a distância. Mergulhando na água salgada, venceu as primeiras ondas. Nadou com a vontade de um atleta, mergulhou ampliando a distância da praia, voltou a nadar com a fúria da revolta, mas seus braços cansaram. Suas lágrimas misturavam-se as águas e abandonada pelas forças, afundou, engolindo, engolindo a última dor.

E nossa personagem nunca foi encontrada, desaparecendo no rastro de seu sentimento. Esta é apenas mais uma história entre tantas que a velha Porto Seguro-BA oferece, lembrando-nos que a recém batizada “Costa do Agito” (Caraíva, Trancoso, Arraial D’Ajuda e Porto Seguro), tem algo mais que axé e sua gastronomia carregada no dendê, pimenta e leite de coco. Nas mesmas praias onde erguem-se as famosas barracas, história e lenda se misturam.

 
  Publicado por Alda Andréia Therkovsky, às 17:13:58
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